
"Por trás, as portas longilíneas brancas e molhadas pelo orvalho da manhã
E no centro do seu salão, autorias e utopias estampadas
Rostos desconhecidos e umedecidos pelo saber
Enrugados do óleo mais puro e envelhecido da experiência.
Lábios avermelhados da mais doce maçã
E as sedosas e masculinas mãos mais lindas, jamais fora inventadas
Trazia nos olhos um fogo açucarado de bem querer
E dentro dos olhos mel-acinzentados, portando toda delícia da essência.
Permanecia como uma criatura esplendorosa,
Na explicação de obra-em-obra
Escorrendo por entre os lábios molhados
A coloração da bela aurora
Caminhava por entre os presentes
Destacando-se na explicação
Pincelando porquês e olhares
Que sozinhos nunca se distinguirão.
Era o Retrato de Dorian Gray
Pulsando no olhar severo e inocente do orientador
Que caminhava sobre as explicações
Das artes que não têm
Nem nunca tiveram finalidades, a não ser o sustento
De seus artistas e suas vaidades.
Cada caminhada suplicava em mim a dor
Da infundada e tão temida essência
De querer ser sempre amor
E ser apenas a mais linda indecência.
Sonhei por entre paredes escalar flamejante
E derramar por entre os dedos, lábios, silhueta
O mais líquido e pálido suco
Que escorre do teu corpo em sintonia perfeita
Mas as obras começam e tem fim
E de todo esse fim, essa sede
De querer pintar tanto desejo
E apenas poder admirar preso à tua parede."
