sexta-feira, 21 de maio de 2010

Cubra os olhos


"Vês, essas árvores

Que na estrada passam por nós (estáticas)

Não são essas caricaturas plásticas

Que encontramos por aí.

Vês, essas caricaturas eclesiásticas

Que parecem tão somáticas,
E mal cabem dentro de si.

Eu vi por aí, uma criatura fantástica,

E por fatalidade drástica

Que o rosto (por infelicidade) mesqueci.

Vês, depois do amanhecer,

Quando não houver m'ais motivos pra adoecer

Esses meus olhos que não mais abri.

Cobriste-me,

E, no entanto tuas lágrimas (prudente insistência)

Diziam que só(mente) adormeci."




(Dedicatória insensível insiste em não aparecer!)

Que festa! Os bichos querem escolher.

"Ah, o bicho preguiça,

Um dia inventou de levantar,
Imaginem só o que ele fez...

(Tanto tempo com energia a acumular)

A tartaruga se levantou em dois pés

E disse que precisava sair dali...correndo!

(Seria mais fácil acreditar na gigantesca arca de Noé)

Só acreditei porque estava vendo.

O macaco tão disciplinado

Foi a pé a todo lugar

(Olha só que engraçado)

Pois me disse que cansou de pular!

A formiga, tão cansada

Aprendeu a tocar violino, cravo, e flauta

(Até fez shows no centro da floresta)

Com direito a pausa pra arrumar a pauta.

Passeando, enfim

Dei de cara com uma preguiçosa Lhama

Cansada de subir montanhas

Decidiu ficar deitada na cama.

Mas o que não contei foi o caso d'uma

que encontrei meio perdida,

Dançando loucamente (e sozinha)

uma dança muito divertida.

Isso tudo foi uma farra, até que decidi ir embora.

Mas no meio do caminho, acabei parando

E encontrei a cigarra,

Mas essa?

Continuava sempre cantando."


(Dedicado à minha "Lira")

Do sofrimento

"Sabes, olhando pro lado,

O mundo parece ser tão simples
Quanto ele não é.

E mais adiante vejo:

Uma plantação, um casebre(inho), uma ovelha...

E o Seu José!

Olhando de fora é tão bonito!

Mas só não sabe quem não quer,

E eu que sei, e acredito,

Que os problemas de José começam no mundo,

E não é preciso estudar a fundo

Pra saber que ele é tão sofrido!

Desde que Dona Maria (sua mulher) morreu

E passou a se chamar só "Zé"

Deixando de ser marido."

terça-feira, 18 de maio de 2010

Deliberado Ditador

E o relógio, dono da direção dos ventos, mais uma vez se impôs, com sua virilidade severa, me culpando de cima.
Deliberado ditador, aponta-me as horas, o tempo, a angústia. Ele, que fica na parede passando as horas (parado), e serve-se do desespero de quem vive pelo tempo, ordena agora que eu me cale, e me culpe. Ele me mostra as horas, a rua, a obscuridade úmida de um porão, as árvores e seus galhos fortes e viris, os vidros, vidros, vírus, vínculos, os prédios altos e fascinantes, faiscantes com sua platéia (dilúvio incandescentemente sujo, de um marromerda). E eles me olham de cima com seus olhares angelicais e sutis, e movem-se num parâmetro gigantesco e me olham com seus olhares ferozes e fúteis, com esses olhos fundos e egoístas, servindo-se de toda paixão fugaz. Arrancam-me as roupas e sussurram horrorentozamente brados infiéis de “eu te amo”, “pra sempre”.

E o relógio corre...
tic, tac, tic, tac, tac, Tac, Tac, TAC, TAC, TAC,
TAC, TAC,TAC

E essas palavras tatuam em mim, e eu olho pra baixo e vejo alienação e sinto um cheiro solitário e cruel, e olho para cima, quero saltar no pescoço dessas palavras que me rodeiam, que me enojam, e o tempo diz: “é tarde”... e a tarde vai indo com a noite, e todos se vão, quando sento e descubro que o amor é apenas um vírus que se instala e nunca mais sai, deixa feridas resistentes, e coloca sua resistência à beira do abismo. Todos querem saltar para agarrar suas palavras, seja lá a cor dos olhos, de quem lhe deu esse mal.
Mas... o maior presente que uma pessoa pode realmente lhe dar é a Morte.


E não há como fugir, o tempo está em mim.