
Gerundino era um político muito redundante. Quando pelas ruas passava, logo se escutava cochichos breves de “lá vem Gerundino, o redundante. Ele acha que não sabemos que pensa que o povo é ignorante!”.
Toda vez que se levantava de sua cadeira, exalava um odor de audácia com fritura, e era como se aquele cheiro gorduroso penetrasse sem pedir licença assim como todas as promessas e palavras que proferia aos seus eleitores. O fazia assim: passava os braços gordos e pulsos peludos e grossos ao redor do ombro e pescoço dos seus eleitores bradando “politicagens” nos seus ouvidos, deixando-os encolhidos e sentindo-se ameaçados. Acabavam por achar que o que sentiam era respeito pelo candidato, mesmo que não passasse de medo, e ele acabava por fim, ganhando mais um voto.
Quando se sentava na sua poltrona vermelha e dourada, acendia seu charuto “Coribas” paraguaio e sentia como se estivesse num trono real fumando um Monte Cristo cubano. Na sua mesa havia três coisas que ele considerava importantíssimas: seu cinzeiro, o retrato da viagem que fez para Alemanha e seu espelho de estimação, no qual depois de saborear as coxinhas fritas que sua secretária trazia nas horas de folga, olhava-se e limpava o bigode gorduroso com uma longa e demorada lambida.
Seu escritório era amplo e espaçoso, mantinha-o sempre vazio e aconchegante, era um ambiente aquecido por cores quentes em tons amadeirados e vermelhos, havia duas poltronas, uma estante de poucos livros (eram tidos mais como enfeites caso precisasse saber algo que lhe ajudasse na campanha), as três janelas da sala eram escondidas por longas cortinas vermelhas de veludo que serviam de proteção para sua paranóia de sempre estar sendo vigiado.
Sofria de uma síndrome chamada “Sindrolítica de Medocâmera”, era uma síndrome caracterizada por atingir apenas políticos, mas raramente em alguns casos não afetava aqueles cujas características eram: bondade facial, gestos alegres e sinceridade oral e crítica. Era totalmente psicológico.
Seu escritório era assim, nada menos que a cabeça do próprio Gerundino, onde havia apenas três coisas importantes: o que sustentava seus prazeres, que eram as pessoas; sua vida pessoal e o que conseguia através de tudo, e por fim, ele mesmo que era tudo o que importava.
Havia apenas lugar pra mais uma pessoas na vida dele que era o lugar de quem pudesse lhe servir ou ser útil às suas vontades e projetos, ou quem lhe pudesse oferecer qualquer coisa. Seus olhos eram sempre cobertos por um antigo óculos de aro e lentes avermelhadas, no qual escondia grande parte do seu olhar , fazendo com que tudo que era desimportante não pudesse penetrar dentro dele, e assim mantinha-se escondido de todo meio e necessidade externa. Esse era Gerundino Redundante Brasil, o político cujos olhos ninguém viu, e embora as pessoas soubessem que é só tirar os óculos de Gerundino para poder solucionar, ninguém se arrisca e dá seu voto, um voto para o medo, o voto em vermelho.
Imagem: Espelho Falso, René Magritte (1928)
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