segunda-feira, 30 de agosto de 2010

22:22 (As possíveis 3 horas)


''As horas passam, e não são as mesmas de ontem.
Só o ponteiro que desponta nas 22 horas, que é sempre o mesmo.
Sempre a mesma hora;
Sempre o mesmo pulsar.
E se acaso o relógio ultrapassasse às 24 horas?
Desordenado, marcando 26...
O tempo não é mais feito de água, ou de areia.
O tempo agora é de ponteiros
E a ponte do meu relógio, não tem beirada.
O 26 inexistente, não é assim tão impossível...
Apesar da distância das horas.''

Sem título, sem ponte.


''A gente se olha atravessado quando senta em esquinas diferentes, o olhar passa despercebido pela rua que não é a mesma rua da gente.
E quando passa nada fica só o silêncio que ansioso suplica a vontade do fixar, ergo os olhos ao teu caminhar que levemente passa aveludado pelo chão, e quando apressado, fica com ansiosa precisão.
Quando na rua o vento beija tua fronte, deliciosamente suspira nos cachos que no abraço envolvem teu pescoço... Cachos que se unem e separam e se colorem, e se disfarçam na escuridão do anoitecer.
Nos nossos desencontros, suspiro meu olhar de longe na tua negra jaqueta, d-e-l-i-b-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e fechada contra o peito, que tristemente não posso desabotoar. De o teu breve avermelhar (meu), não pode por fim, colorir-me de mim mesma, e nas pálpebras lacrimejadas de diamantes percorrendo meu corpo em melancólica sinfonia, formam um triste colar do diamante mais salgado que já provei.
Meu querer fica limitado em refinada dualidade, que se perde entre nossas esquinas tão vazias, e separados esperamos o encontro da carona que jamais vai nos encontrar...''

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Suicídio da Gota.


Essa noite,
A árvore estendeu seu galho, vestido pela brisa orvalhada, que caía molhada no chão.
Dançava a gota na ponta, esperando o momento
De jogar-se contra o chão.
Ansiosa, num pulo ao encontro trágico jogou-se levianamente,
E ao cair refletia no seu corpo como um espelho
A imagem daquilo que havia em sua volta, tornando-se tudo aquilo que a rodeava.
Foi o reflexo da flor,
O reflexo do bosque,
O reflexo de outras gotas,
Até se tornar o reflexo da sua própria dor.
Caiu na roseira, deslizou na rosa,
Parou durante um tempo na curva dos Seus espinhos...
delirou, Delirou, DELIROU...!
...caiu na terra e fundiu-se ao chão.
Ficou estática observando de baixo a dança das folhas,
As folhas da macieira já negras por maldade do tempo...
Permaneceu ali, umedecendo a noite da terra e o corpo da rosa,
Satisfazendo a beleza da flor e a sede da terra.
Às 6 horas, quando o sol se ergueu com uma virilidade intensa e magnífica
Determinada a aquecer e confortar da sua maneira vermelha,
Secando o corpo das árvores e suas folhas, as plantas e as pétalas da rosa,
Secando a terra e toda água...
...Era o fim da gota.



Era o fim.

À noite a árvore estendeu seu galho novamente.
E chorou uma nova gota que pacientemente esperou a hora de jogar-se.
Às três horas, despediu-se do braço amigo da árvore e seguiu destino.
Suavemente caiu sobre a terra mergulhando em pedrinhas e insetos.
Envolveu-se à uma semente.
Penetrou com toda vida, todo amor.
Uniu-se intensamente ao seu encontro, ficando segura no ventre da semente.
Aos poucos foi permanecendo e fortificando-se com a chegada do sol.
Até tornar-se uma bela rosa negra, brilhante e delicada
Esperando o mergulho de alguma gota que se atrevesse...
...a suicidar-se
Nas suas pétalas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O que te dói?

O quê corta mais que amor de infância quando acaba?
Mais que descobrir que depois da morte não há mais nada?
Dói muito mais que perder o melhor amigo pra namorada;
Ter nas mãos o céu e não ter um chão pra ter segurança;
Dói mais que crescer e esquecer de ser criança...
É a raiva
É a raiva
É a raiva.
...