sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Dissonante


''O sono dissona a soma
No sono que disse ser.
Só não soa como sonante,
Consoante sonhava em ser.
Se sonhasse sonar no sono
De quem sona um sonho assim,
É que tem um sonhar pesado
Que não sona nem de ruim.''

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Bitte Bitte, geb' mir Gift


''Tem uma luz na tua mão
Dourada como os grãos do sol
Ela envolve teus dedos e me cega
Toda vez que passo.
E disfarço com o passo cambaleante
d
e s
com
Passado coração que se agita
E pula no peito, só a alma sabe a dor...
Toda minha rua fica aflita
A calçada inteira de nervos palpita,
De tão brilhante, me suga toda cor.
Mas quando passo impassível,
Impossível
Sem disfarce,
Leio nos teus olhos desmembrados de amor
e não há falta.
Tambén não há disfarce que compreenda as mãos nos meus olhos
Pedindo proteção por tal cegueira esverdeada,
Que anseio a espera da morte
Batendo sempre na porta errada''

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

22:22 (As possíveis 3 horas)


''As horas passam, e não são as mesmas de ontem.
Só o ponteiro que desponta nas 22 horas, que é sempre o mesmo.
Sempre a mesma hora;
Sempre o mesmo pulsar.
E se acaso o relógio ultrapassasse às 24 horas?
Desordenado, marcando 26...
O tempo não é mais feito de água, ou de areia.
O tempo agora é de ponteiros
E a ponte do meu relógio, não tem beirada.
O 26 inexistente, não é assim tão impossível...
Apesar da distância das horas.''

Sem título, sem ponte.


''A gente se olha atravessado quando senta em esquinas diferentes, o olhar passa despercebido pela rua que não é a mesma rua da gente.
E quando passa nada fica só o silêncio que ansioso suplica a vontade do fixar, ergo os olhos ao teu caminhar que levemente passa aveludado pelo chão, e quando apressado, fica com ansiosa precisão.
Quando na rua o vento beija tua fronte, deliciosamente suspira nos cachos que no abraço envolvem teu pescoço... Cachos que se unem e separam e se colorem, e se disfarçam na escuridão do anoitecer.
Nos nossos desencontros, suspiro meu olhar de longe na tua negra jaqueta, d-e-l-i-b-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e fechada contra o peito, que tristemente não posso desabotoar. De o teu breve avermelhar (meu), não pode por fim, colorir-me de mim mesma, e nas pálpebras lacrimejadas de diamantes percorrendo meu corpo em melancólica sinfonia, formam um triste colar do diamante mais salgado que já provei.
Meu querer fica limitado em refinada dualidade, que se perde entre nossas esquinas tão vazias, e separados esperamos o encontro da carona que jamais vai nos encontrar...''

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Suicídio da Gota.


Essa noite,
A árvore estendeu seu galho, vestido pela brisa orvalhada, que caía molhada no chão.
Dançava a gota na ponta, esperando o momento
De jogar-se contra o chão.
Ansiosa, num pulo ao encontro trágico jogou-se levianamente,
E ao cair refletia no seu corpo como um espelho
A imagem daquilo que havia em sua volta, tornando-se tudo aquilo que a rodeava.
Foi o reflexo da flor,
O reflexo do bosque,
O reflexo de outras gotas,
Até se tornar o reflexo da sua própria dor.
Caiu na roseira, deslizou na rosa,
Parou durante um tempo na curva dos Seus espinhos...
delirou, Delirou, DELIROU...!
...caiu na terra e fundiu-se ao chão.
Ficou estática observando de baixo a dança das folhas,
As folhas da macieira já negras por maldade do tempo...
Permaneceu ali, umedecendo a noite da terra e o corpo da rosa,
Satisfazendo a beleza da flor e a sede da terra.
Às 6 horas, quando o sol se ergueu com uma virilidade intensa e magnífica
Determinada a aquecer e confortar da sua maneira vermelha,
Secando o corpo das árvores e suas folhas, as plantas e as pétalas da rosa,
Secando a terra e toda água...
...Era o fim da gota.



Era o fim.

À noite a árvore estendeu seu galho novamente.
E chorou uma nova gota que pacientemente esperou a hora de jogar-se.
Às três horas, despediu-se do braço amigo da árvore e seguiu destino.
Suavemente caiu sobre a terra mergulhando em pedrinhas e insetos.
Envolveu-se à uma semente.
Penetrou com toda vida, todo amor.
Uniu-se intensamente ao seu encontro, ficando segura no ventre da semente.
Aos poucos foi permanecendo e fortificando-se com a chegada do sol.
Até tornar-se uma bela rosa negra, brilhante e delicada
Esperando o mergulho de alguma gota que se atrevesse...
...a suicidar-se
Nas suas pétalas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O que te dói?

O quê corta mais que amor de infância quando acaba?
Mais que descobrir que depois da morte não há mais nada?
Dói muito mais que perder o melhor amigo pra namorada;
Ter nas mãos o céu e não ter um chão pra ter segurança;
Dói mais que crescer e esquecer de ser criança...
É a raiva
É a raiva
É a raiva.
...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sem.


"Hoje, quando acordei,
Vi as linhas que cortam o meu rosto
sadicamente sorrindo para mim no espelho
Que sadicamente sorriram para mim no espelho.
Arrastei minhas mãos até a cama
Deitei meu rosto como deita o chão no meu joelho.
Em meu derradeiro fim
Eu fui devagar até a entrada do portão de madeira
Subindo, levemente, cada degrau daquela escada
Como fosse a primeira
Na última vez, então, parei,
um pé acima e outro, que apoiava no calcahar,
Sujeitando o esquerdo abaixo da sola do direito
Fingindo um breve caminhar.
O som do violino que cantava
Nas mãos de um homem que qualquer canção tocava
Vibravam ondas e o calor da nota
Que toda nota em mim tocava
No meio da multidão linhas turvas,
Linhas douradas em um castanho escuro
Tão doce e selvagem ouro que me doeu
Era amargo como um dia eu fui.
Que de toda esperança me enriqueceu.
Passou entre tantos e veja só,
Tantos, todos, eram nada.
Que queimou como brasa, todo...
Meu corpo que congelava.
Um homem se pôs em frente à porta,
Era escuro como o carvão,
Passava os dedos no rosto secando a lágrima
Fingindo ser um lenço a sua grosseira mão
A tiete incendiava com um fogo vil a platéia
E ninguém queria seus favores
Eu fechava os olhos
E fechava a boca para não deferir meus amores.
E assim ali inerte
Permaneci inebriada em mim mesma
Nos olhos de quem passou
Nos passos de quem andou
Nas notas que ele tocou.
E de repente...
Shhhhh...
O momento final.
A platéia de aplausos
E nada mais.
Minhas sensações se perderam
E desci as escadas de madeira
Como se fossem as últimas:
De maneira corrida
como pintura mal feita e úmida...''

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O mundo é feito de grandes filhos da puta que praticam filha-da-putagem o tempo todo com outros filhos que não são de putas e não têm nada a ver.
A gente vive num morro, onde se pede socorro, e enquanto delira só consegue descer.
E depois lá embaixo, umedecido no sangue, se diz ADEUS.

domingo, 11 de julho de 2010

Preto&Branco


"Ontem parecíamos duas linhas
Que se enrolavam de maneira aleatória
Cada vez mais confusa;
Tuas mãos consolando as minhas
Envolvidas por uma sintonia simplória
E friamente difusa.
Sustentados num abraço opaco
Esperando o desfecho do alívio
A morte da discussão.
O que era belo até então tornou-se fraco
Vagando inebriado pela solidão.
Não escuto então na brisa do inverno
A música que outras madrugadas dançavam em mim,
Apenas ecos do ontem
Do ontem que foi o fim."

terça-feira, 29 de junho de 2010

O Retrato de Dorian Gray


"Por trás, as portas longilíneas brancas e molhadas pelo orvalho da manhã
E no centro do seu salão, autorias e utopias estampadas
Rostos desconhecidos e umedecidos pelo saber
Enrugados do óleo mais puro e envelhecido da experiência.
Lábios avermelhados da mais doce maçã
E as sedosas e masculinas mãos mais lindas, jamais fora inventadas
Trazia nos olhos um fogo açucarado de bem querer
E dentro dos olhos mel-acinzentados, portando toda delícia da essência.
Permanecia como uma criatura esplendorosa,
Na explicação de obra-em-obra
Escorrendo por entre os lábios molhados
A coloração da bela aurora
Caminhava por entre os presentes
Destacando-se na explicação
Pincelando porquês e olhares
Que sozinhos nunca se distinguirão.
Era o Retrato de Dorian Gray
Pulsando no olhar severo e inocente do orientador
Que caminhava sobre as explicações
Das artes que não têm
Nem nunca tiveram finalidades, a não ser o sustento
De seus artistas e suas vaidades.
Cada caminhada suplicava em mim a dor
Da infundada e tão temida essência
De querer ser sempre amor
E ser apenas a mais linda indecência.
Sonhei por entre paredes escalar flamejante
E derramar por entre os dedos, lábios, silhueta
O mais líquido e pálido suco
Que escorre do teu corpo em sintonia perfeita
Mas as obras começam e tem fim
E de todo esse fim, essa sede
De querer pintar tanto desejo
E apenas poder admirar preso à tua parede."

terça-feira, 15 de junho de 2010

Voto em Vermelho


Gerundino era um político muito redundante. Quando pelas ruas passava, logo se escutava cochichos breves de “lá vem Gerundino, o redundante. Ele acha que não sabemos que pensa que o povo é ignorante!”.
Toda vez que se levantava de sua cadeira, exalava um odor de audácia com fritura, e era como se aquele cheiro gorduroso penetrasse sem pedir licença assim como todas as promessas e palavras que proferia aos seus eleitores. O fazia assim: passava os braços gordos e pulsos peludos e grossos ao redor do ombro e pescoço dos seus eleitores bradando “politicagens” nos seus ouvidos, deixando-os encolhidos e sentindo-se ameaçados. Acabavam por achar que o que sentiam era respeito pelo candidato, mesmo que não passasse de medo, e ele acabava por fim, ganhando mais um voto.
Quando se sentava na sua poltrona vermelha e dourada, acendia seu charuto “Coribas” paraguaio e sentia como se estivesse num trono real fumando um Monte Cristo cubano. Na sua mesa havia três coisas que ele considerava importantíssimas: seu cinzeiro, o retrato da viagem que fez para Alemanha e seu espelho de estimação, no qual depois de saborear as coxinhas fritas que sua secretária trazia nas horas de folga, olhava-se e limpava o bigode gorduroso com uma longa e demorada lambida.
Seu escritório era amplo e espaçoso, mantinha-o sempre vazio e aconchegante, era um ambiente aquecido por cores quentes em tons amadeirados e vermelhos, havia duas poltronas, uma estante de poucos livros (eram tidos mais como enfeites caso precisasse saber algo que lhe ajudasse na campanha), as três janelas da sala eram escondidas por longas cortinas vermelhas de veludo que serviam de proteção para sua paranóia de sempre estar sendo vigiado.
Sofria de uma síndrome chamada “Sindrolítica de Medocâmera”, era uma síndrome caracterizada por atingir apenas políticos, mas raramente em alguns casos não afetava aqueles cujas características eram: bondade facial, gestos alegres e sinceridade oral e crítica. Era totalmente psicológico.
Seu escritório era assim, nada menos que a cabeça do próprio Gerundino, onde havia apenas três coisas importantes: o que sustentava seus prazeres, que eram as pessoas; sua vida pessoal e o que conseguia através de tudo, e por fim, ele mesmo que era tudo o que importava.
Havia apenas lugar pra mais uma pessoas na vida dele que era o lugar de quem pudesse lhe servir ou ser útil às suas vontades e projetos, ou quem lhe pudesse oferecer qualquer coisa. Seus olhos eram sempre cobertos por um antigo óculos de aro e lentes avermelhadas, no qual escondia grande parte do seu olhar , fazendo com que tudo que era desimportante não pudesse penetrar dentro dele, e assim mantinha-se escondido de todo meio e necessidade externa. Esse era Gerundino Redundante Brasil, o político cujos olhos ninguém viu, e embora as pessoas soubessem que é só tirar os óculos de Gerundino para poder solucionar, ninguém se arrisca e dá seu voto, um voto para o medo, o voto em vermelho.



Imagem: Espelho Falso, René Magritte (1928)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Cubra os olhos


"Vês, essas árvores

Que na estrada passam por nós (estáticas)

Não são essas caricaturas plásticas

Que encontramos por aí.

Vês, essas caricaturas eclesiásticas

Que parecem tão somáticas,
E mal cabem dentro de si.

Eu vi por aí, uma criatura fantástica,

E por fatalidade drástica

Que o rosto (por infelicidade) mesqueci.

Vês, depois do amanhecer,

Quando não houver m'ais motivos pra adoecer

Esses meus olhos que não mais abri.

Cobriste-me,

E, no entanto tuas lágrimas (prudente insistência)

Diziam que só(mente) adormeci."




(Dedicatória insensível insiste em não aparecer!)

Que festa! Os bichos querem escolher.

"Ah, o bicho preguiça,

Um dia inventou de levantar,
Imaginem só o que ele fez...

(Tanto tempo com energia a acumular)

A tartaruga se levantou em dois pés

E disse que precisava sair dali...correndo!

(Seria mais fácil acreditar na gigantesca arca de Noé)

Só acreditei porque estava vendo.

O macaco tão disciplinado

Foi a pé a todo lugar

(Olha só que engraçado)

Pois me disse que cansou de pular!

A formiga, tão cansada

Aprendeu a tocar violino, cravo, e flauta

(Até fez shows no centro da floresta)

Com direito a pausa pra arrumar a pauta.

Passeando, enfim

Dei de cara com uma preguiçosa Lhama

Cansada de subir montanhas

Decidiu ficar deitada na cama.

Mas o que não contei foi o caso d'uma

que encontrei meio perdida,

Dançando loucamente (e sozinha)

uma dança muito divertida.

Isso tudo foi uma farra, até que decidi ir embora.

Mas no meio do caminho, acabei parando

E encontrei a cigarra,

Mas essa?

Continuava sempre cantando."


(Dedicado à minha "Lira")

Do sofrimento

"Sabes, olhando pro lado,

O mundo parece ser tão simples
Quanto ele não é.

E mais adiante vejo:

Uma plantação, um casebre(inho), uma ovelha...

E o Seu José!

Olhando de fora é tão bonito!

Mas só não sabe quem não quer,

E eu que sei, e acredito,

Que os problemas de José começam no mundo,

E não é preciso estudar a fundo

Pra saber que ele é tão sofrido!

Desde que Dona Maria (sua mulher) morreu

E passou a se chamar só "Zé"

Deixando de ser marido."

terça-feira, 18 de maio de 2010

Deliberado Ditador

E o relógio, dono da direção dos ventos, mais uma vez se impôs, com sua virilidade severa, me culpando de cima.
Deliberado ditador, aponta-me as horas, o tempo, a angústia. Ele, que fica na parede passando as horas (parado), e serve-se do desespero de quem vive pelo tempo, ordena agora que eu me cale, e me culpe. Ele me mostra as horas, a rua, a obscuridade úmida de um porão, as árvores e seus galhos fortes e viris, os vidros, vidros, vírus, vínculos, os prédios altos e fascinantes, faiscantes com sua platéia (dilúvio incandescentemente sujo, de um marromerda). E eles me olham de cima com seus olhares angelicais e sutis, e movem-se num parâmetro gigantesco e me olham com seus olhares ferozes e fúteis, com esses olhos fundos e egoístas, servindo-se de toda paixão fugaz. Arrancam-me as roupas e sussurram horrorentozamente brados infiéis de “eu te amo”, “pra sempre”.

E o relógio corre...
tic, tac, tic, tac, tac, Tac, Tac, TAC, TAC, TAC,
TAC, TAC,TAC

E essas palavras tatuam em mim, e eu olho pra baixo e vejo alienação e sinto um cheiro solitário e cruel, e olho para cima, quero saltar no pescoço dessas palavras que me rodeiam, que me enojam, e o tempo diz: “é tarde”... e a tarde vai indo com a noite, e todos se vão, quando sento e descubro que o amor é apenas um vírus que se instala e nunca mais sai, deixa feridas resistentes, e coloca sua resistência à beira do abismo. Todos querem saltar para agarrar suas palavras, seja lá a cor dos olhos, de quem lhe deu esse mal.
Mas... o maior presente que uma pessoa pode realmente lhe dar é a Morte.


E não há como fugir, o tempo está em mim.


terça-feira, 23 de março de 2010

Vou pra lá


"Vou pra Bahia que dá,

Ou pra Bagdá, que não.

Vou pro Sul, pro Paraná,

Pra São Paulo, São João.

Quem sabe Porto Alegre,

Não muito alegre, Bagé.

Talvez eu vá de bicicleta,

De avião tenho medo, vou a pé.

Acho que vou pra Dom Pedrito,

e passe por Santa Catarina,

Melhor mesmo é Gramado,

Porque lá é mais bonito.

Vou pro Rio, Cristo Redentor,

No milagre dos céus não acredito,

Vou-me embora pra Pasárgada

Como disse Manuel Bandeira,

E tenho dito."

segunda-feira, 22 de março de 2010

Apanhei a sacola, e fui em direção à parte verde do supermercado. Olhei por cima das frutas e legumes até encontrar o vermelho ácido dos tomates.

"-Encontrei vocês!" - gritei saltitante

Um cara meio carrancudo olhou meio esquivo e soprou pra si mesmo como se dissesse

"-Guria retardada".

E como se eu desse toda a atenção do mundo pra o que ele pensou... segui em frente.

Uma senhora charmosa se pôs ao meu lado, e se opôs a mim por que uso meu cabelo pintado de vermelho, ora! Ela ia comer tomates vermelhos... As unhas delas ainda cheiravam à esmalte molhado e salão de beleza barato. Sorri e fiquei observando, ela pegou um, dois, três tomates! Nenhum estava bom o suficiente,

"-Esse me parece estar velho, aquele tem uma mancha verde, e esse aqui, han... tem uma ferida, ora tomates com feridas!"

E jogou ele longe. Fiquei sentida com aquilo, fitando o pobre tomate ferido, pois, o tomate velho estava por apodrecer, o da pequena mancha verde em breve ia amadurecer, mas... e o ferido, quem ia querer? Por um tempo fiquei olhando pra ele, sem pensar em absolutamente nada, até que balancei a cabeça e meio que acordei da viagem,

"-Pronto! é tu que eu vou levar pra casa!"

Cheguei em casa, larguei as compras, coloquei a água do miojo pra esquentar e fui ver o tomate, ora ele estava suado, como se prevesse o futuro, pensei:

"Ninguém te quis, mas eu te quis, só eu sei a dor de ser tomado nas mãos e não ser apreciado e envolto por alguém, ou no caso, pela sacola por possuir algum defeito, essa tua ferida, vamos cuidar dela, fica calmo tomatinho, a natureza é assim mesmo, às vezes acontece"

Peguei a faca e arranquei aquela ferida, o tomate pareceu se sentir aliviado porém, estava sem um pedaço.

(Dentro do tomate, mal sabia eu que existia tanta vida e que aquela vida queria me dizer algo.)

Algum tempo antes de eu entrar naquele supermercado, um homem meio bruto e com pouco amor à vida, acostumado a ir sempre escolher tomates para seu molho de pizza, toda vez que escolhia alguns, enfiava o dedo em um tomate, justamente pra deixá-lo ferido, essa brutalidade se repetia, se repetia, até que alguém criasse coragem de denunciá-lo pro gerente, mas do qe adiantaria afinal, vários tomatinhos já teriam sido machucados e instantâneamente rejeitados por outras pessoas e por eles mesmos, por não se acharem dignos de fazer um molho decente.



No fim, o tomatinho virou molho.


Morreu.
1

terça-feira, 16 de março de 2010

Descaso.


- Porque ele me verde!

- Ele te verde? Como assim???

- Sei lá, o cheiro dele me verde...

- As coisas agora te colorem?

- Exato! E quando me colore daquele verde, feliz fico eu!

- Acho que compreendo... às vezes também me vermelho.

- Te fazem cores também?

- Não, me machuco.

sábado, 13 de março de 2010

Simples.


"Porque depois sou eu quem fica correndo atrás de soluções."


Simples.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Desventura...


"Quando escrever não faz sentido,

É como um zumbido que afoga o ânimo,

É como um cântico noturno e melancólico,

Que bufa no peito em suspensão, Meio alcoólico,

Um carnaval sem folia,

Um arsenal, com magos sem magia,

Um clarão que cega, incessante,

É como sorrir sem alegria,

Guardar os doces na estante,

Olhar pro lado e enxergar o que está acima,

É como música infantil sem rima,

Pedaços de um cristal esfarelado,

O puríssimo branco, amarelado,

Nada mais.

É ver no horizonte o futuro,

E ainda assim, andar pra trás..."

terça-feira, 9 de março de 2010

Se é pra ser, assim que seja assado.

Sou mulher, independente
Vê se cai fora da minha frente,

e não se abanca,
Se vier, você se tranca,
Por que hoje, to nem aí!
Se vier vai levar chumbo,
vai dar tua banda vagabundo
Que da tua cara só vou rir!
Sou lutadora, tenho raça
E você ainda acha graça,
Em tentar me persuadir?!
Vê se some, tu não é homem
Em mim não vai encostar!
Eu trabalho dia e noite,
Pra ouvir tanta besteira,
Violência e bebedeira, cai fora do meu lar!
Não to aqui pra te escutar!
Você tenta, e invade, mas a minha propriedade
É privada, impenetrável,
Pra roubar minha dignidade,
Com esse teu ar de maldade
Infundado e intragável,
NEM PENSAR!
Nem aqui, nem noutro lugar.
Não tenho cara nem careta
Pra tentar ser explorada,
Difundida e maltratada, hahahaha!
Toda essa crueldade, seu bandido,
Seu COVARDE!
Logo, essa opressão!
Sustentar meu sacrifício, meu pão,
Mais o teu vício, mais a tua judiação?!
Não!
Se tens braço, eu tenho fome,
Sou guerreira, sei lutar
Aqui não é o teu lugar!
Te coloco atrás das grades,
e se quiseres,
Me invade,
Mas vai ter que aguentar!
Tenho meus direitos humanos,
As marcas não vão ficar debaixo dos panos,
Sofrimento e humilhação?
Não!
Chantagem, roubo e suborno
Se sou "mulher do lar", então te aqueço no meu forno
Você vai ter que aguentar!
E depois de tanta injúria, desgosto e calúnia,
Ainda quer me limitar?
Sabe o que vai acontecer?
Sou Maria, minha lei nº 11.340
Quem sabe, a gente tenta,
Mas é melhor você correr.




Em homenagem à todas nós, mulheres desse planeta, 8 de março, dia internacinal da luta política, social e humana da Mulher.
Lei "MARIA DA PENHA" nº 11.340/06
Em caso de violência doméstica, NÃO SE CALE, cale o agressor, se você souber algum caso de violência, ou sofra algum tipo de dano físico ou psicológico, denuncie! Exija os seus direitos.
Central de Atendimento à Mulher:
Telefone: 180

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Não sou ruim contigo.


- Tu, não me dá a mínima atenção! Um gesto de carinho teu é menos esperado do que a existência de Deus! Te dou liberdade ( friccionando as mãos freneticamente ) te dou apoio, sou teu alicerce! É assim que me agradece?


- Mas... ( as mãos na boca) "tolo, como pode pensar algo tão brutal?"


- Fico aqui, no abandono do lar, pronto pra tua chegada, e desperto a todo momento por tua partida!


-Não é minha intenção, te quero bem, sempre, e sempre vou.


- Céus! Eu sempre disponibilizo meus momentos para ti, sempre disposto meus sentimentos ficam quando me chamas, e é isso? apenas 20 ou 30 minutos e estás pronta pra uma nova aventura, e eu... aqui, no abandono do lar.


-Me desculpa, achei que...


-Achou errado. Penso que é melhor eu partir, penso que é melhor parar agora. Só o que eu pedi foi uma noite, um momento feliz...


(sempre em discussão...)



...Quer saber? Adeus!


-Mas... espera! Como podes tu, saber o que eu sinto, tu não sofre menos que eu, me fazes sentir como um montro que enjaula na tua liberdade! Porque me tratas assim? Porquê?


- Nada mais, me despeço, me despedaço, tu és SEM CORAÇÃO!


E sai, ele, com o amigo que o estava esperando, com a garrafa cheia de whiskey, seus planos formados, sua felicidade. E fica ela ali, na sede da angústia, na lamúria da culpa, no infinito do sentimento dele, e ela? Onde ela está? Pra onde vai? E ELA?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

- Como ousa, coração pobre! A amar ainda, o indigno de ser amado! Como ousa, sentimento tão nobre poder ser tão audacioso até chegar no ponto de ser desprezível?! Deixa eu te sentir, coração, e mais uma vez fazer rir os meus nervos por esse teu negro fluir! Pensas tu que por queimar em fogo ardente, podes mesmo me fazer consentir tal "amor"?

- Eu que não lhe permito tal infâmia! Sou dono de ti, posso fazer-te debruçar aos pés da dama mais indiscreta e oferecer à ela teu desgaste emocional, teus bens e... eu mesmo!

- Veja, que presunção! Tu, deste tamanho, nessa empáfia, não vês que sou tuas pernas? Por mais danos que possas tu me causar, ainda assim, só chegará ao teu destino através de minha vontade!

- Sim, tua certeza está correta. Porém, faria tuas entranhas agonizarem e teu crepusculoso troféu de livre arbítrio se esvair num só toque perfumado de uma jovem dama. As mesmas pernas que me levariam por teu consentimento até onde eu quisesse, se convulsionariam violentamente até onde ( leve sorrir ) eu... quiser (longa pausa).

-Vejo que não fui claro. Teu amor não é nada, quando a razão em mim fala mais alto.

- O amor não tem palavras, elas não vão ser teu escudo para o sentir.

- Então, veja (...)




Imagem: Gustave Courbet

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010


"E o pior é saber

Que eu dou amor à quem não amo,

E quem eu amo eu guardo ao meu lado,

E aqueço quando chamo.

E quando chama, se apaga

Se perdendo por aí,

escrevendo cartas de sangue,

Achando que esqueci."

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


"...E é como se uma bomba relógio atacasse meus sentidos, pulsando segundos que transpiram calor a cada toque. De repente me tornei selvagem, vil e convexa. Delirantes, meus gritos atravessam minhas veias, gemendo o pulsar do sangue que transborda a incandescência do prazer.

Ah... esse amor me ultrapassa todas as linhas, e cada linha escrita é um toque macio e faminto no meu corpo, na minha pele, mas no meu coração, parece nada acontecer.

As cores desbotaram essa noite, logo após uma noite de amor com ela mesma. E de repente incandesci, de repente apaguei. E eu, nos meus lírios e delírios, não fui suficientemente apaixonante para mim por um instante. Percebi que era preciso lamentos, esperas e palavras, e silêncios, cheiros, que sinto agora mesmo sem estar.

E o pedaço de papel que perfuma essa minha noite (e só minha), descansa dobrado ao lado do meu corpo, fazendo companhia ao meu recital de devaneios e loucuras apaixonadas.

Perdoem os príncipes e os cafajestes, mas esta noite eu pertenço à mim (E só a mim)! Embora o quisesse.

Hoje o perfume me basta, hoje a essência me envolve, na solitude de mim, apenas minhas mãos no meu corpo deslizando como a brisa, suave e selvagem como uma flor silvestre. Hoje eu sou minha, hoje vocês, são EU."

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Um post que preste.

"Preciso de um post que preste, por que postar sem prestar não tem razão. Talvez alguém me empreste, ou eu possa criar, porque não? Nem sei se algo aqui está errado, muito denso ou muito descolado, e também não preciso saber, e também não preciso inventar, acho melhor não postar... mas preciso ser criativa, e ousar um ousar diferente, talvez escreva pra ler só eu mesma, ou talvez eu seja escrita pra muita gente. Não sei, não sei... se eu paro ou se deslizo por aí... se eu posto, aposto que nada, vai mudar alguma coisa que está aqui..."

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Mors Tua Vita Mea


"-Que final sangrento! Poderia ter sido diferente se talvez os olhos dele me atraíssem mais!" - Sussurrei fitando aqueles olhos inertes enquanto meu punhal saboreava sua artéria. - As paredes da sala choravam sangue... aquele sangue tão espesso e ínfimo que corria nas veias daquele homem fútil e insensível. Levantei de súbito em direção à primeira garrafa de whiskey que tivesse a cor mais pálida e me fizesse apagar aquele vermelho, aquele... aquele sangue sujo! Estava por toda parte como uma praga que devasta! Minhas mãos choraram com o suor da culpa, de repente estremeci, estremeci não o corpo, mas os sentidos, e eles tomaram conta de mim, e com movimentação maníaca aquela bebida descia amarga e inquietante, transformando o prazer da fuga numa derradeira aflição -"Céus o que eu fiz! Me tornei o que eu mais abomino, me tornei maldade, antes ela penetrava em mim durante algumas frias horas, agora, sou!". Aquilo me perseguia, de repente, um murmúrio flácido e desejado me enfeita os ouvidos, com palavras que pareciam uma outra fuga oportunista. Enraivecida proferi algumas coisas ainda com o gole na boca, fazendo com que a raiva cuspisse toda a dose -"Mas quem é você pra me dizer que o errado é o certo? Não vê que matei um homem?" Logo sua resposta veio de imediato, como se o desespero tivesse me possuído naquele momento, que certo era meu propósito, certo era a retaliação daquela carne. E na penumbra dos sentidos surge uma silhueta esculpida de sentimentos estranhos, enquanto eu apreciava o desenho de cada parte daquele... homem? Um alívio prazeroso tomava e conta das minhas mãos, da minha mente, da minha culpa... Suavemente sua mão cortesã alisava a minha, e numa dança sublime de suas mãos levando meu punhal em direção ao meu pescoço, num passo dançante se pôs atrás de mim... sussurrou com uma doce melodia aquilo que eu precisava fazer... agora eu era meu inimigo, a partir do momento que o tornei à mim, e como todo inimigo, precisava ser morto. Prazerozamente cravei o punhal, sentindo o gosto do sangue, ardente como o fogo, subindo pela minha garganta, delícias se passavam à frente dos meus olhos, quando me vi úmida, coberta pela camada vermelha que outrora me enojou, satisfeita sorri e suavemente profana com um sorriso desfaleci. Agora eu estava livre.

O dia que me descobri.


No dia em que me descobri,

Estava passeando por aí.

De repente me encontrei.

De repente me perdi.


No dia que me descobri,

Foi um dia chuvoso de inverno,

Era quente como o inferno

E brilhante como a lua.


Minha cabeça girava,

Meu corpo gemia,

no dia que me encontrei,

VAZIA.


Me olhei, virei o rosto,

dava dó me ver tão assim!

No dia que me descobri

foi o fim!


Levantei minha cabeça morta,

Arrumei os cabelos e acariciei meu rosto,

Pensei comigo mesma: E se de repente...

E me cobri novamente.


Saí por aí à procura,

De algo que não era eu.

De repente então descobri,

Que Natália morreu.



(...)

Sou humana.


"E o pior de ser humano, é saber que ser humano é normal.

O pior do ser humano é não poder se libertar, sem fazer ao menos algum mal.

O pior de ser humano, é que por mais que quem se ame, fará sempre tudo igual.

O pior do ser humano, é saber que todo ser é humano, e não há nenhum excepcional."

terça-feira, 12 de janeiro de 2010


E olhando pro alto, distraída...

De repente pensando na vida,

até ser interrompida,

foi questionada da seguinte maneira:


P.:" - O que é isso?"


L.:"- São cartõezinhos!"


P.:"- É... difícil de tirar daqui!"


L.:"- Deixa-me ver... É! Tem certas coisas que são difíceis de tirar."

sábado, 9 de janeiro de 2010


"Às vezes penso que fui feita,

Sem uma certa receita,

No qual ninguém sabe refazer.

Toda vez que me desfaço,

Falta um certo pedaço,

Que não consegue se restabelecer.

Falta uma certa cobertura,

Doce como a clara de neve,

E forte como o amargo do chocolate,

Às vezes algo em mim ferve,
Ou se parte.

Às vezes passo do ponto,

e não encontro como voltar atrás.

Às vezes fico pronta,

E acabam comigo numa fome voraz!

Não deixam um pedaço de mim,

Ou algum resquício.

Quem me inventou só não sabia,

Da dificuldade do cozinheiro,

Que sabe os ingredientes certos,

Mas não sabe como fazer perfeito.

E daqui sigo, no meu destino incerto,
Pensando em alguém que faça direito."

"- E se de repente..." - pensou tranquilamente.

"- Valesse a pena estar..." - indiferente.

"- Quem sabe um dia..." - esperançosa.

"- Feliz eu estaria..." - Pretensiosa.

"- Que enganação!" -exclamou com raiva.

"- Melhor não ir." - E foi pra praia.

De repente.


"De repente o espanto,

Do doce e liso pranto, me sorriu.

De repente o encanto,

tão fugaz entanto,

Partiu.

Retornou veloz,

Com encanto embriagado em sua voz,

Sugerindo um novo estar,

Mas não estou,

Mas eu não vou voltar atrás.

Resolvi ficar, resolvi não ver.

Decidi estar, e não apenas ter.

Entendi melhor,

Desapareci, tudo estremeceu,

Tudo se esvaiu.

Com enorme estupidez

Foi arrancado de mim,

Um pedaço do laço,

que mantinha esse começo,

Reconheço, minha culpa, não poderia ser diferente.

Quando a gente precisa de amor,

E não está contente."

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


"Meu Deus! E como transborda!

Que sentidos são esses que aqui não posso expressar?

Porquê tu, anjo, repousas em mim como o mar sobre a areia,

Calmo e voraz, inocente e veloz,

Tu, pássaro reluzente,

Mil vezes mais precioso que um beijo,

Infinitamente mais caloroso do que um abraço,

Tu, és na formosura do ser, a inocência retratada num olhar,

E como ferve esse sentimento,

e adormece fino sobre o berço dos sentidos,

A calma, acalma...

Nem a divindade seria capaz de materializar,

Um sentimento tão extenso, tão puro.

É como a brasa que me enfurece de amor,

Desprezando sentimentos vis,

Limitado às vezes como um cego,

Mas perfumado como o Anis.

Mas me nego a entregar, tal sentimento tão lindo em vão!

Talvez dias nublados virão...

Mas nada que algum dia eu quis."

" Ah se tu soubesse, o vazio que estou sentindo..."

É como se fosse um toco de vela

Se abrindo, se derretendo, se apagando,

Se partindo e esfriando,

No calor do meu bem estar,

Ahhh se soubesse... a frieza em que me encontro,

Tal desencontro seria nada,

E eu seria apenas mais uma amada,

No qual novamente foi esquecida.

Mas não!

Ah, se essa chama, toco que revela,

fizesse grande brasa e aquecesse,

Os invernos da minha alma,

estariam prestes a me abandonar,

Esses sim precisam ir embora,

E não o alguém que quer me amar.

Se tu soubesse o desespero,

E o apelo no qual escrevo,

Estaria tu agonizando,

Sentido pelo fardo do meu frio nervo,

Se tu soubesse a amargura,

De estar sentindo tal mal estar,

Estarias comigo,

Num fervoroso abraçar."

Esse vazio...

Esse vazio que sopra no peito...

Invisível e ácido,

Insensível e pálido...

E tenso como a espera.

Vazio como a falta das flores na primavera,

Frágil como o fino cristal,

Denso como um temporal,

Triste como os contos de Lira,

Enigmático e fervoroso,

Meu corpo todo se arrepia

Na dança macabra da magia

Desencantada do fino pavio,

Do pequeno toco de vela amarelada

No canto de mim encrencada

Por baldes de água congelados,

Sem ter como fugir para os lados,

Apenas esperando,

O esplendor do adeus.